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o lugar que a morte ocupa

Hoje é a primeira madrugada depois que o Brasil teve a notícia de que Silvio Santos morreu. Semana passada pensei sobre isso: a comoção que seria pela partida do maior comunicador do país. Chegou o dia. Lembrei de quando eu era criança e, assistindo aos seus programas, eu dizia para minha mãe que eu gostava tanto dele que queria que ele fosse meu avô. Até porque, eu praticamente não tinha um. O pai do meu pai havia morrido há muitos anos e o pai da minha mãe não era presente. 

Durante o dia, assisti alguns artistas prestando suas homenagens. Por um lado, era de se esperar. Silvio estava com 93 anos, hospitalizado. Por outro lado, parece mentira. Ele sempre esteve lá e, de cerca forma, vai continuar. Sempre vi ele pela TV e é assim que vou continuar vendo. Vivo ou em outro plano, há um tempo o Instagram me mostra vídeos repetidos com trechos de programas antigos e que eu assisto, de novo e de novo. 

Quando assisti ao depoimento de Carlos Alberto de Nobrega, amigo de Silvio há 70 anos, me emocionei e percebi: até o momento, diante de todas as despedidas que vivenciei, nunca chorei por quem partiu. Chorei vendo a dor de quem ficou. Foi assim com minha avô paterna, quando vi meu tio se atirar em cima do seu corpo. Foi assim com minha tia, irmã mais velha do meu pai, quando vi seu marido chorando sem aceitar. Hoje, foi assim com Silvio.

Não sei ainda qual a minha relação com a morte. Até aqui, aceitei bem quando a ida foi justificada pela idade. Mas, não sei se será assim quando for a vez do meu pai partir. Perder meu pai já foi o maior medo que tenho. Todo mês, um dia, penso nisso e choro. Hoje foi esse dia. 

Já pensei em conversar isso com ele, mas não sei até que ponto é de um egoísmo sem tamanho falar sobre a morte com quem já se vê mais próximo dela. Seguindo a lei natural da vida. Eu sei o peso do medo de perdê-lo, mas não sei sobre o peso dele em relação à morte.

Posso imaginar ele me tranquilizando, dizendo que faz parte da vida e todos nós vamos passar por isso. Mas, hoje pensei que assim como é estranho a comunicação não ter Silvio Santos, é estranho pensar em viver sem alguém que existe desde que nasci, não apenas ao meu redor, mas, de certa forma, dentro de mim.

Estou quase certa de que vivo o luto das perdas antes delas acontecerem e quando chega a hora, me surpreendo por estar bem. E olhar para algumas pessoas que já tiveram essa experiência. Uma amiga querida perdeu o pai há poucos anos e acho um verdadeiro super poder a forma como ela fala dele, com muito amor, lembranças e saudade. Uma saudade saudável. 

A vida é um mistério e a nossa cultura não nos ensina a compreender que morrer é tão natural quanto nascer e que ambos envolvem chegadas e despedidas.

Talvez, esse medo represente uma segunda grande despedida...

Meus pais se separaram quando eu tinha 13 anos. Eu lembro do momento exato em que ele foi embora de casa. Eu estava assistindo televisão, talvez, um programa do próprio Silvio Santos, quando meu pai chegou no quarto com sua mala azul (ela ainda existe no quarto de serviço da sua casa) para se despedir. 

Não chorei - não na frente dele. Nunca quis que meus pais se sentissem culpados pela decisão. Mas, foi só fechar a porta da rua que caí em prantos. Sei disso, mas disso não lembro bem. Talvez minha memória tenha apagado para me proteger. Até porque, só aos quase 30 anos, durante uma sessão de hipnose e outra de bioenergética, consegui acessar a consciência de que isso me afetava.

E já sabendo que me afetava, durante uma cerimônia de Ayahuasca, tive um pensamento que deu um abraço no medo:

Para alguém como meu pai, um homem gentil e de bom coração, que buscou evoluir e evoluiu com o passar dos anos, a morte é louvável, como um ponto de chegada para o corredor olímpico que treinou, se empenhou, percorreu todo o caminho e completou a prova da melhor forma possível: levando para o pódio, a sua medalha de ouro... 

Talvez, possa ser assim uma boa forma de ver a morte, como um prêmio para quem vai desse mundo lindo e louco, com a torcida de quem ainda fica.

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