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O trabalho de tornar tudo mais simples

"A criança que você foi um dia teria orgulho do adulto que você se tornou?"

Penso que a criança que fui sim, enquanto o adulto que eu me tornei, ainda tem dificuldade de valorizar mais a fundo quem ele é. Momentos constantes de alegria e gratidão, oscilações de emoções, padrões conscientes e desafiadores, medo da rejeição e coragens absurdas e até subestimadas. Persistente na arte de se conhecer com honestidade e se responsabilizar pela própria vida. 

Como todo fim de ciclo menstrual, sinto o impulso de avaliar o que faz sentido pra mim e o Instagram sempre entra na jogada. Hoje, arquivei a maioria das minhas postagens. Fotos de 6 anos atrás me lembram lindamente quem eu sou em essência e me fazem pensar o que disso está manifesto em mim atualmente ou se perdeu, porque também me transportam para uma outra vida que não é mais minha. 

Sinto saudades daquela menina - já mulher - de 6 anos atrás, mas sei que quem sou hoje, amadureceu um pouco mais. Se traumatizou um pouco mais também, mas também se curou um pouco mais e seguem exatamente assim, em tempo e espaço distintos...

É por isso que é tão difícil saber quem somos. São tantas partes, fases, interferências... Sei dos meus valores, sei o que faz sentido pra mim essencialmente e não pretendo pensar muito sobre o que quero ser. Já estou sendo e, hoje, isso basta. Sou o que sou, o que consigo ser, o que escolho ser, o que a vida me leva a ser - não necessariamente nessa ordem nem em coexistência.

As vezes, preciso relembrar do que gosto e descobrir novos gostos também. Circunstâncias da vida me moldaram mais conformada para ter menos daquilo que posso viver mais. Caçula de uma família de cinco, todos com pelo menos 9 anos a mais que eu. Aprendi, pela configuração da casa e por crenças sistêmicas, a estar mais só, apesar de amar estar junto. Então, hoje, faço dos dois. 

E, fazendo dos dois, amo manter contato com pessoas, ao mesmo tempo que alguns momentos me levam a buscar a solidão - sem o peso que muitos atribuem a essa palavra. Simplesmente desejar permanecer com relações profundas e interações verdadeiras e menos números, menos conhecidos apenas, menos close. Ao mesmo tempo, do jeito que o mundo está, me coloco em dúvida sobre o que pulsa. Me questiono...

Será que ao parar de seguir algumas pessoas no Instagram, eu estarei me isolando?

Qual o critério para seguir ou não?

Se não posto mais, estou perdendo alguma oportunidade?

Estar presente é, muitas vezes, coisa do ego.

Querer se ausentar também?

Se pensamos demais, enlouquecemos. Pensar em alguma medida é natural e ajuda a mudar. O resto é exatamente a ação para que a mudança aconteça, mesmo sem saber o próximo passo. O que escolho agora faz sentido com o amanhã que desejo? Mas que amanhã é esse? Dormimos e acordamos não mais junto com o sol, mas isso ainda divide o tempo para nós. Dia, noite, dias, semanas, meses, anos. Anos que passam sem que a gente veja, mas perceba aos sustos.

Olho para o reflexo no espelho e alguns fios brancos dão o ar da graça. Vou reparando neles e numa mudança ou outra no rosto. Eu ainda gosto de experimentar isso, mesmo que, as vezes, também possa ser um pouco desconfortável. Mas é ao ver que o sobrinho já está completando 18 anos que eu me assusto; e que a loja no shopping já anuncia que é quase Natal de novo, também.

Comecei a ler um livro que diz que, racionalmente, sabemos que vamos morrer, mas não sabemos realmente, porque seria muito difícil lidar com esse fato de forma tão lúcida. Por isso que pessoas que entram em crise de ansiedade se desesperam, porque elas experimentam a certeza da morte. A Ayahuasca também pode despertar essa sensação. Eu nunca senti, talvez porque eu não tenha medo da morte e a medicina desperta o que está vivo em nós. 

Quando meu ciclo menstrual se encerra é como se eu renascesse, como sou e como quero ser. É louco como somos reféns de tantas variáveis biológicas, emocionais, psicológicas e, as sociais, nos levam à máxima potência do desafio de viver. Por isso eu, acreditando que estamos aqui para aprender, não acredito que estamos aqui para sermos felizes. O que não significa que não devemos ser ou não iremos ser.

A felicidade é, para mim, como luz no fim do túnel para onde nos direcionamos - é o nosso desejo. Mas, com tantos desafios, não é, de fato, uma experiência que vivenciamos integralmente. É a nossa condição humana na terra. Estamos nesse corpo e, por mais que a gente lute para sentir diferente, estamos fadados a alguns sistemas naturais e até espirituais para quem acredita, comuns a todos deste planeta.

As vezes nos sentimos felizes, as vezes não. As vezes nos sentimos felizes ao mesmo tempo que estamos tristes, porque alegria é outra coisa e felicidade é mais como estado mental do que estado de humor. Se nascêssemos realmente para ser felizes, tudo seria mais simples, mas não é, e o meu trabalho é justamente esse: tornar.

"Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho" - Clarice Lispector

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